As novas Cruzadas

16/03/2013 10:32

E os Direitos humanos?

 

Demagogias a parte, o “tal” discurso diferente da ação nunca esteve tão em foco nos últimos dias. Tendo como protagonista a bancada evangélica, em especial o Pastor Marcos Feliciano a frente da Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados, seria brilhante, senão o maior contra senso da história, a dita escolha. Passo a digressão.

 

Em primeiro lugar, um líder religioso da influencia e competência: intelectual, profissional, teológica, dentre outras como o Pastor Marcos Feliciano, não precisaria em tempo algum se imiscuir nos assuntos da vida pública. A uma porquê a ordenação pastoral lhe rende quantias generosas, fruto do seu trabalho, doações, conferências, cds gravados, etc. A duas porquê considerando esta já dita influência no meio gospel, bastaria um simples “tapinha nas costas”, a exemplo do que Lula fez com Dilma para que, qualquer outrem por este indicado ascendesse ao poder na vida pública. Logo dessume-se que as escolhas realizadas não foram as mais acertadas.

Em segundo lugar, quando da convocação para integrar a Comissão de Direitos Humanos que trata intimamente de questões controvertidas à luz de parte expressiva da teologia cristã, lato senso, seria mais prudente e por via reflexa, probo, a recusa imediata por parte do Pastor que ao invés de ajudar, fez que movimentos contrários a sua pregação fossem cada vez mais fortalecidos.

Destarte, em especial a questão da homossexualidade, poderia o nobre líder sacro ter evitado manifestações, inclusive a porta da igreja onde preside, evitando assim que a reputação da igreja evangélica sempre vista no todo fosse espoliada uma vez mais.

Cumpre ressaltar que, vivendo sob a égide do Estado Democrático de Direito, torna-se imperioso destacar que, com o novo conceito de família adotado pelo sistema jurídico brasileiro, independente da função exercida por quaisquer membros do legislativo, juridicamente as acepções próprias e tão pessoais a acerca da interpretação da Bíblia, o Alcorão, a Torá, ou qualquer outro manual sacro, não se sobressaem à supremacia da lei, vez que nesse interim, o discurso deixa de ser discurso e passa ser efetivo no campo jurídico, onde o positivismo impera sobre quaisquer aspirações teocêntricas exacerbadas, ou não.

Falar em Deus, em Direitos humanos e de religião, não é falho ou desnecessário, mas o interlocutor deve ter em mente que, a Deus há religião; Aos Direitos humanos há lei; à religião há aos seus próprios dogmas. Logo, na expressão popular, cada um no seu quadrado.

Por fim, de nada adianta alguém deter poder político, mais a “graça divina”, se a vontade e a soberania popular não forem respeitadas. Basta lembrar que o próprio Cristo não veio descumprir a lei, mas para cumpri-la.

Não existe pecado, pecadinho ou pecadão. Se você matar alguém ou ofender outem, o pecado é da mesma extensão. Será que todos os “santos sem céus”, estão debaixo de tanta santificação?

Nos tempos das novas cruzadas em que as minorias ascendentes (evangélicos versus sociedade liberal comportamental) se engalfinham na busca pelo “alter ego” –Um pregando um Deus de amor que mais assusta que ama e outro pregando o medo de uma perseguição mais latente, restamos nós, aqui, assistindo os capítulos.

Não pode e nem deve esquecer o Pastor Marco Feliciano que seu papel é presidir a Comissão de Direitos Humanos e não da ética ou moral divina. Estamos no Brasil, não sob a égide da teocracia da Santa Sé. Habemus Democracia!

Em nome de Deus já morreram tantas pessoas enforcadas, massacradas, queimadas e, não adianta falar que essas coisas não ocorrem nos dias de hoje porque somos o esplendor do século XXI. Hoje, as mortes são silenciosas, pois minam a capacidade de pensamento do ser humano, destrói sua auto-estima, fragiliza as relações familiares e, assim por diante.

Para os mais demagogos, a lição do filme “Orações para Boby”. Ame a Deus. Faça seu caminho e seja feliz. Pode até existir outras vidas, mas você só conhece e reconhece nesta.

Momento Mori.