Epílogo Primeiro
Havia uma revolução iminente. Feita de anônimos rebeldes, escrita por homens sem faces e encenada por seres descalços. Estava ali, na ponta do desfiladeiro da saudade. Quieta e quase imóvel, mas tão célere quanto um piscar de olhos, deu-se.
A noite escura, qualquer e calada, despindo-se da timidez taciturna, aos poucos se pôs a dizer a que veio. Tão harmônica e graciosa foi que, até a brisa sussurrante em calor pleno, parou pra assistir o balé que remontava entre orvalhos e nanquin de estrelas soltas.
Ah! e que doce revolução é essa, de fazer a Gália ter inveja dos nocautes não tomados e clamar pela arrebentação das comportas que só quem suportou as feridas floresceu ao bálsamo? Que revolução é essa prestes a estourar como a represa farta em águas caudalosas que ao menor toque do vento sobre o leito, o estopim da redescoberta da vida nasceria ou renasceria, talvez? O fato é: estávamos em plena metamorfose noite a fora.
Silêncio, dizia. Preciso que conheças algo novo. Tens a muito, mas nunca destes atenção devida. Então, se possível, permita-me conduzir-te por este arranjo que aflora a pele.
Há anos embriagado pela poeira da espera, este instante impar que repousado sobre o peito da anunciação, tornou-se nada mais, nada menos que inigualável. Havia um misto de lagrimas de felicidade com satisfação de não se saber o que, mas tudo isso junto e misturado, era-me tão real quanto as letras deste texto, as paginas deste nascente livro ou o ar que acabou de fugir, pulmão afora do seu interior.
- Calma criança, eu ainda vou te surpreender bem mais!
Pronto, as pernas já eram, ainda mais vindo de uma família com vasto histórico de cardíacos, recordo-me de ter tempo, apenas pra uma prece encomendando minha alma aos céus, antes que a ultima gota do unguento deslizasse sutilmente, ladeira abaixo dos cuidados meus.
Então, quando aquela que pensei ser a última das lágrimas, tornou-se a enésima de tantas outras que seguiram, um fio de razão escapou-me pelos dedos. Eu já estava completamente entregue. Como numa teia de aranha boa e fértil, ficar perene não saciava a minha sede. Ficar, assim, só aumentava a minha fome de bem querer e mais um muito. Logo, resolvi que precisava existir, apenas. Resistir aquela melodia, senão improvável, era quase impossível.
“Foi louco”. Recordei-me dos infantes dias de escola e, vislumbrar este momento foi no mínimo pitoresco. O coração tem mais que veias, artérias, músculos ou sangue. Como viver é bom!
Sim, sim. Isso não é uma frase esparsa no meio do texto ou um choque entre coesão e coerência. É assim que meus sentidos se organizam e se apresentam no mar dos navegantes desolados que, avistando o cais, milagrosamente cantam seus porquês, ainda que num gesto mudo de futura posse.
E, a não ser que seja anátema de pedra ou sonhos, meu âmago cantou estas coisas todas ao pé do ouvido meu e disse tudo com toque manso de mãos abraçadas, antes de chegar o sono.
Havia uma revolução iminente. Agora, restam apenas os revolucionários deixando que a história seja escrita pelo som do coração.