Penitência!

22/11/2011 10:58

            Às vezes eu me pego no emaranhado de entrelinhas que construo, pensando e, não muito raro me deparo com um oceano de unhas poucas, cuspidas ao vento e ao tempo, como se fossem restaurar ou suprir, ainda que por instantes, os problemas que nascem com o sol.

            E pra quê? Vivemos sempre tantas ânsias que até nossa percepção de sentido, transvia-se a um valor bijutérico que de monta alguma serve: sofremos em demasia por antecipação.

            Será que a China vai produzir mais? Será que a crise vai chegar ao Brasil? Será que o Lula vai fechar as igrejas? Será que o Papa realmente é pop? Porque o Luan é Santana e não Civic? Será que amanhã vai chover, esquentar, morrer ou chorar o meu dia? Será? Olá, alguém pode me ajudar? Assim, esperamos como crianças que uma baratinha vermelha grite: “Eu, o Chapolim Colorado”!.

            Frases como: Menina, não coma esse espaguete: ele engorda! Não toma refrigerante, dá estrias. Não beba, dá barriga. Não fume, dá impotência. Não coma “porco frito”, dá colesterol. Não isso, não aquilo e aqui chego aos mares de nossas hipocrisias. Fico imaginando um espaguetão gigante, como um espaguetão de Olinda, como dois metros sendo mastigado pela “menina”! Quem engorda somos nós, se sedentários. Ou ainda, o “refri da tarde” transformando o corpo nosso em uma bola gigante de flatos. Flatos? É o tal peido mesmo, no popular. E quanto à barriguinha, a impotência e tantas neuras? Porque não tem uma baleia no pacote de batatas fritas dizendo “Olha, você vai ficar assim e temos fotos macabras no cigarro que fariam Jason perder o sono em toda sua eternidade ou Sexta-feira 13 parecer cantigas de ninar? Paciência, não é?

            Vamos falar mais do álcool, da lei seca que querem aprovar: tolerância zero. Reitero, pra que sofrer por antecipação? Prevenir é indicar o caminho e não ser o caminho. E a livre escolha? Onde deixo o que penso e posso fazer? Riscado na capinha da caixinha de promessas? No empoeirado Salmo 91 da casa da tia Jurema? Já sei: na roda de oração da terça-feira? Ou quiçá no culto de libertação da Santa Luzia?

            Gente, tudo tem limites. E eu bem sei disso. Contudo, também sei que os exageros nos levam ser irracionais e ao medo. Já pensaram em bombardear  educação com qualidade? Investir no menino para forjar o homem? Valorizar o professor pra ter qualidade no SUS? Reestruturar a polícia, para se ter noites tranquilas de sono?

            Agora, me diga. Quem em sua sanidade mental, vai correr o risco de perder a própria vida – àquela única, que não se equipara a do PlayStation que sempre volta – com uma arma velha, que mata mais pelo tétano que pela qualidade do armamento, em função de um Estado que não valoriza nada?

            Quem vai correr o risco de apanhar em sala de aula, responder processo administrativo, ou ser o próximo alvo, literalmente, porque um moleque mal educado, filho de pais, certamente, pessimamente instruídos e marginalizados, que confundem o processo de escolarização com o processo de educação? Isso é muito grego para você, nobre leitor? Essa é a imagem do nosso governo. O Governo Federal nos dá e toma como a mesma mão e afago e, o nosso próprio autogoverno, desequilibrado: surta.

            E como na utopia de algum conto engraçado que rimos esperando o tal “viveram felizes para sempre”, nem nos damos conta que às vezes nós somos os grandes senhores dos problemas e achaques que raiam como sol. É difícil viver o futuro com os pés no presente, sem sofrer por antecipação? Esse é o grande terço insano que rezamos em casa, na rua, no trabalho, ou numa casinha de sapé. Que penitência. Mas, pensando bem, será que ...